3 Fevereiro 2026

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Choque de Realidade: ENAMED 2025 expõe fragilidade no ensino médico e MEC coloca 30% dos cursos sob supervisão rigorosa

Resultados do Exame Nacional de Medicina, braço específico do ENADE, revelam discrepância na formação de novos médicos; Ministério da Educação anuncia congelamento de vagas e ameaça descredenciamento de instituições com notas insuficientes.

POR REDAÇÃO EDUCAÇÃO & SAÚDE Brasília, 20 de Janeiro de 2026

O Ministério da Educação (MEC) divulgou, na manhã desta terça-feira, os resultados consolidados do ENAMED (Exame Nacional de Medicina), vinculado ao ciclo avaliativo do ENADE 2025. Os dados trazem um diagnóstico preocupante para a saúde pública e privada do país: cerca de 30% dos cursos de medicina avaliados obtiveram notas insatisfatórias (conceitos 1 e 2, numa escala de 1 a 5). Diante do cenário, a pasta anunciou um pacote de medidas sancionatórias imediatas, que incluem a suspensão de novos vestibulares e a proibição de expansão de vagas para as instituições reprovadas.

O exame, que se consolidou nos últimos anos como o “termômetro definitivo” da qualidade médica no Brasil, expôs uma fratura no sistema de ensino superior. Enquanto universidades públicas tradicionais e algumas privadas de excelência mantiveram o conceito máximo, um número expressivo de faculdades — muitas abertas durante o “boom” de autorizações da última década — demonstrou incapacidade de entregar a formação mínima exigida pelas Diretrizes Curriculares Nacionais.

O Que é o ENAMED e o Peso da Nota

O ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) é uma ferramenta criada para avaliar o rendimento dos concluintes dos cursos de graduação. No entanto, dada a sensibilidade e a responsabilidade social da profissão médica, o componente de avaliação para esta área foi reformulado e fortalecido, ganhando a alcunha de ENAMED.

Diferente de uma prova comum, o resultado ENADE 2025 para medicina compõe o Conceito Preliminar de Curso (CPC). A nota final não reflete apenas o desempenho do aluno na prova teórica, mas cruza dados sobre a infraestrutura da faculdade, a titulação do corpo docente (mestres e doutores) e a organização didático-pedagógica.

“O ENAMED não avalia apenas se o aluno sabe a teoria, mas se a instituição ofereceu o cenário de prática, o internato adequado e os laboratórios necessários. Uma nota baixa no ENAMED é um sintoma de falência estrutural do curso”, explica a Dra. Helena Martins, especialista em avaliação educacional e consultora de políticas públicas.

Resultados 2025/2026: A “Lista Vermelha” do MEC

O ciclo do ENAMED 2025 avaliou mais de 350 cursos de medicina em todo o território nacional. Segundo o relatório do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a concentração de notas baixas (1 e 2) ocorreu majoritariamente em instituições privadas localizadas em regiões que sofreram expansão acelerada sem a devida contrapartida de rede hospitalar de ensino.

Estados como Santa Catarina, Goiás e áreas do interior de São Paulo figuram no relatório com clusters de instituições sob alerta. Em Santa Catarina, especificamente, três cursos privados estão sob investigação administrativa após apresentarem, por dois ciclos consecutivos, queda vertiginosa nas notas ENAMED, sugerindo uma precarização do ensino.

“Identificamos alunos no último ano que não tiveram vivência prática em urgência e emergência, algo inadmissível. O MEC ENADE medicina serve justamente para filtrar essas anomalias antes que esses profissionais cheguem ao mercado de trabalho despreparados”, afirmou, em coletiva, o Secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres/MEC).

O Impacto das Sanções: Cursos Penalizados

A reação do governo foi rápida. Para os cursos de medicina reprovados (aqueles com CPC abaixo de 3), o MEC aplicou medidas cautelares que entram em vigor imediatamente para o ano letivo de 2026. As sanções variam de acordo com a gravidade e a reincidência:

  1. Congelamento de Vagas: As faculdades não podem aumentar o número de alunos nem abrir novos editais de transferência externa.
  2. Suspensão de Novos Ingressantes: Para os casos mais graves (nota 1), o vestibular é suspenso. A instituição fica impedida de matricular novos calouros até sanar as deficiências apontadas e passar por nova visita in loco dos avaliadores.
  3. Termo de Saneamento de Deficiências: As faculdades são obrigadas a assinar um acordo com o MEC, comprometendo-se a investir em infraestrutura e corpo docente sob pena de descredenciamento total — o que significaria o fechamento do curso.

Essas medidas afetam diretamente a saúde financeira das instituições de ensino, muitas das quais dependem das altas mensalidades de medicina (que variam entre R$ 8 mil e R$ 14 mil) para sustentar outros cursos deficitários.

Repercussão Acadêmica e o Medo dos Estudantes

A divulgação das ENAMED notas gerou apreensão nos corredores das universidades. Para os estudantes matriculados em cursos penalizados, o clima é de incerteza. Embora o MEC garanta o direito de conclusão para quem já está cursando, o diploma de uma instituição “reprovada” perde valor de mercado.

“A gente paga uma mensalidade altíssima e, no final, descobre que o curso está mal avaliado. O medo é chegar na residência médica e ser preterido por ter vindo de uma faculdade com conceito baixo no ENADE”, desabafa Lucas Ferreira, estudante do 5º ano de uma instituição privada no Centro-Oeste que teve as vagas cautelarmente suspensas.

Para o Dr. Roberto Caldas, médico e professor universitário, a culpa não deve recair sobre o aluno, mas sobre a mercantilização do ensino. “O aluno é vítima de um sistema que vendeu o sonho do diploma médico sem entregar a estrutura hospitalar. O ENAMED está expondo a ferida: medicina não se aprende apenas com slides e bonecos, precisa de leito, de paciente real e de preceptor qualificado”, analisa.

ENEM, ENADE e ENAMED: Entenda as Diferenças

Para o público leigo e vestibulandos, a “sopa de letrinhas” das avaliações pode confundir. É essencial distinguir:

  • ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio): É a porta de entrada. Avalia o conhecimento do ensino médio e seleciona candidatos para entrar na faculdade (via Sisu, Prouni ou Fies).
  • ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes): Avalia a saída. É aplicado aos concluintes da graduação para medir o quanto aprenderam durante o curso.
  • ENAMED: É a aplicação específica do ENADE para a medicina, com critérios mais rigorosos de avaliação prática e teórica, funcionando quase como um selo de qualidade indispensável.

Os resultados atuais mostram que tirar uma nota alta no ENEM para entrar não garante uma boa formação se a faculdade não oferecer os meios. A correlação entre altas notas de corte no Sisu e alto desempenho no ENAMED 2025 medicina só se manteve nas instituições públicas e nas privadas tradicionais (confessionais e comunitárias).

O Futuro do Ensino Médico

O cenário desenhado pelo resultado ENADE 2025 aponta para uma contração necessária no mercado de educação médica. Especialistas defendem que o Brasil não precisa de mais faculdades, mas de melhores faculdades.

“O que estamos vendo com a lista ENAMED deste ano é um freio de arrumação. O mercado não vai mais absorver médicos formados em ‘uniesquinas’. A tendência é que cursos ruins fechem ou sejam absorvidos por grandes grupos educacionais que tenham capital para investir na qualidade exigida pelo MEC”, projeta Ana Clara Ribeiro, consultora de gestão educacional.

O MEC prometeu revisitar os cursos penalizados em um prazo de 12 meses. Até lá, as faculdades correm contra o tempo para reformar currículos, contratar doutores e firmar convênios com hospitais de ensino. Para a sociedade, o recado é claro: a formação médica no Brasil passa por um momento de depuração, onde a qualidade técnica e a segurança do paciente voltam a ser o fiel da balança, acima dos interesses comerciais.

Enquanto a poeira não baixa, a recomendação para os vestibulandos de 2026 é única: antes de se matricular, consultem o portal do e-MEC e verifiquem não apenas o preço ou a localização, mas a cor da nota que a instituição recebeu no teste mais importante de sua história.