A Coroa de Espinhos: por que Bélgica e Holanda são as bombas-relógio mais perigosas da Copa de 2026
Sempre candidatas, nunca campeãs. De um lado, a Holanda de Ronald Koeman abraça o pragmatismo para exorcizar o trauma de três finais perdidas. Do outro, uma Bélgica reerguida das cinzas por Rudi Garcia tenta provar que há vida (e perigo) após a “Geração de Ouro”. Em um torneio focado nos gigantes tradicionais, os vizinhos dos Países Baixos conspiram nas sombras.
Caminhar pelos corredores dos centros de treinamento em Zeist, na Holanda, ou em Tubize, na Bélgica, é uma experiência imersa em melancolia e frustração histórica. Há uma aura pesada, quase palpável, que assombra essas duas nações. Juntas, elas redefiniram a forma como o planeta joga futebol nas últimas cinco décadas — da revolução do “Carrossel Holandês” à fábrica de supercraques belga dos anos 2010. No entanto, quando as luzes dos estádios se apagam e os troféus da Copa do Mundo são erguidos, holandeses e belgas invariavelmente terminam com as mãos vazias, aplaudindo a festa alheia.
Faltando pouco mais de um mês para o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2026, que transformará a América do Norte no epicentro do esporte, o ecossistema do futebol mudou o foco. Os holofotes estão fixos na turnê de despedida de Messi, na França de Mbappé e na crise existencial sul-americana. Para a Holanda e a Bélgica, contudo, a ausência do rótulo asfixiante de “favoritos absolutos” não é um rebaixamento. É uma tática de guerrilha. Ambas as seleções desembarcam no Mundial prontas para explodir as chaves eliminatórias, apostando em esquemas táticos frios e na força bruta de transições que desafiam a lógica.
A Laranja Pragmática: A Metamorfose de Koeman e o Golpe de Abril
Para a Holanda, a Copa do Mundo é um trauma geracional. As feridas de 1974, 1978 e 2010 ainda ardem na memória coletiva. Mas o técnico Ronald Koeman não está aqui para escrever poesias sobre o “Futebol Total” de Johan Cruyff. Como ele mesmo gosta de lembrar nos bastidores: “Eu fui zagueiro. Minha função sempre foi resolver os problemas que os atacantes não conseguiam”.
A versão 2026 da seleção holandesa — a eterna Laranja Mecânica — reflete exatamente essa frieza. O esquema tático não prioriza uma posse de bola vaidosa, mas sim um bloco de marcação impenetrável e transições verticais devastadoras. O alicerce dessa fortaleza continua sendo Virgil van Dijk. Aos 34 anos, o zagueiro e capitão é a extensão da voz de Koeman dentro de campo. “Ele nos dá um senso de calma irreal”, avaliou recentemente o elenco. “Koeman sabe como preparar um time para a guerra”.
No entanto, as engrenagens holandesas acabam de sofrer um baque estrutural severo. Em meados deste mês de abril, uma notícia vinda de Eindhoven caiu como uma bomba: Jerdy Schouten, o motor tático invisível do meio-campo de Koeman, rompeu os ligamentos cruzados do joelho jogando pelo PSV e está fora da Copa. A ausência do volante obriga a Holanda a reconfigurar sua sala de máquinas às pressas, depositando ainda mais responsabilidade nos ombros criativos de Xavi Simons e na explosão de Cody Gakpo.
Mais à frente, a esperança atende por Memphis Depay. O atacante superou questionamentos, superou a sombra de lendas do passado e se consolidou como o maior artilheiro da história da seleção nacional. Se a Holanda for encurralada nos gramados americanos, será a genialidade rebelde de Depay que Koeman acionará para quebrar as linhas inimigas.
O Eletrochoque Belga: A Queda de Tedesco e a Ressurreição de Garcia
Se a Holanda busca o refinamento no pragmatismo, a Bélgica precisou de um desfibrilador. O último ciclo dos “Diabos Vermelhos” foi um roteiro digno de tragédia. Após o colapso interno na Copa do Catar, a federação belga (RBFA) apostou em Domenico Tedesco. O resultado foi desastroso: uma campanha melancólica na Euro 2024, confrontos de ego públicos com Thibaut Courtois e uma queda vertiginosa de rendimento que culminou na demissão de Tedesco no início de 2025.
Foi um movimento que custou mais de 1 milhão de euros a uma federação com os cofres dolorosamente vazios. A missão de salvar o navio belga de um naufrágio absoluto foi entregue ao francês Rudi Garcia. E, contra todas as probabilidades, a terapia de choque funcionou.
“Rudi tirou o peso do mundo das costas desses jogadores”, me confessou um influente olheiro do mercado da bola europeu que acompanha a Bélgica de perto. “Não existe mais a obrigação estética da ‘Geração de Ouro’.’ Garcia transformou a equipe num batalhão focado no resultado bruto.”
Com Garcia, a Bélgica passeou pelas eliminatórias e resgatou o melhor de sua peça mais letal: Romelu Lukaku. O centroavante voltou a atuar como um verdadeiro aríete, amassando zagueiros e abrindo espaços cruciais. Ao lado de um Kevin De Bruyne agora mais cadenciado, operando como o arquiteto solitário do meio-campo, os belgas mesclaram sua velha guarda com a vitalidade atlética de Jérémy Doku, cuja velocidade pelas pontas é capaz de humilhar qualquer lateral-direito incauto.
A Geopolítica e o Peso do Dólar
Por trás dos esquemas táticos e das declarações polidas nas coletivas de imprensa, as federações da Bélgica e da Holanda encaram a Copa do Mundo de 2026 como um balcão de negócios vital. A KNVB (Holanda) quer sedimentar seu status como uma superpotência comercial capaz de rivalizar financeiramente com ingleses e alemães. Uma classificação para as semifinais inflacionaria drasticamente o valor de sua já badalada escola de base no mercado internacional.
Para a RBFA (Bélgica), a situação flerta com o desespero existencial. A entidade atravessou as últimas temporadas sangrando dinheiro, pagando multas rescisórias astronômicas para técnicos e lidando com uma infraestrutura de base que exige investimentos pesados para não ficar obsoleta. “Se a Bélgica cair na primeira ou na segunda fase, não estaremos falando apenas de manchetes raivosas em Bruxelas”, explica um executivo financeiro ligado à UEFA. “Estaremos falando de um retrocesso de dez anos nos orçamentos de formação do país. O futebol belga precisa do prêmio em dólares das quartas de final para estancar o próprio sangramento.”
O Veredito nas Sombras da América
O inchaço da Copa para 48 seleções beneficia diretamente as potências de segundo escalão europeu. A matemática da fase de grupos permite que Holanda e Bélgica aqueçam seus motores sem o risco imediato da guilhotina, ajustando o esquema tático antes do moedor de carne do mata-mata.
Quando o torneio afunilar, a verdadeira face destas equipes emergirá. A Holanda trará a frieza de uma defesa liderada por Van Dijk e a verticalidade assassina que pune o menor erro. A Bélgica atacará com o alívio de quem não tem mais nada a perder e a potência de um Romelu Lukaku revigorado.
Espanha, França, Argentina e Inglaterra, que se cuidem. O erro mais letal que a aristocracia do futebol pode cometer em 2026 é olhar para os Países Baixos e enxergar apenas perdedores crônicos e glórias passadas. Despidos do peso de serem os favoritos absolutos, holandeses e belgas se transformaram nas armas mais imprevisíveis do torneio. E em uma Copa do Mundo longa, quente e brutal, um franco-atirador bem posicionado nas sombras sempre foi mais perigoso do que um general marchando em campo aberto.